Lirou Consumidor, um brasileiro que nunca desiste

Lirou Consumidor, um brasileiro que nunca desiste

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Lirou Consumidor é um pequeno empreendedor na Internet, e seu email, de quase duas laudas, me chamou a atenção sobre o quanto temos ainda de avançar no que se refere aos direitos do consumidor no Brasil. Logo que se interessou em contratar o serviço de Internet banda larga, Lirou já estranhou o fato de ter de pagar duas empresas diferentes para ter um só serviço. Infelizmente, essa é uma das coisas que acontecem por aqui e que não têm explicação lógica. Não é apenas no quesito velocidade de conexão que esse serviço deixa a desejar em relação ao que é oferecido em outros paises. No Brasil, é necessária a contratação de uma operadora, cuja função é conectar o seu computador ao tronco central da Internet, ”backbone”, e também de um provedor de acesso, cuja função… não se sabe qual é. Isso é tão absurdo, que existe até uma entidade civil organizada para lutar contra esse e outros problemas dos serviços de acesso por banda larga chamada abusar*. Além disso, uma infinidade de consumidores já entrou na justiça, indignada, contra a dupla cobrança. Não foi o caso de Lirou, que, conhecendo a acentuada agilidade de nosso poder judiciário, fingiu para si mesmo que estava tudo bem e contratou o serviço das duas empresas, as quais chamaremos aqui de BIG 1 e BIG 2. 

No início, ele até que ficou feliz com a possibilidade de enviar rapidamente sua newsletter mensal a todos os seus clientes, mas a alegria de Lirou durou pouco. Alguns meses depois, a empresa BIG 2 começou a cobrar por uma conta que ele já havia pago. Lirou Consumidor, que era organizado e tinha o comprovante bancário do pagamento, fez diversas ligações para o sofisticado serviço de atendimento da empresa. Foram tantas, que ele até decorou a “musiqueta” de espera, mas sua ligação sempre caía com alguma atendente que, depois de 15,  20 minutos de espera; educadamente dizia: “– Olha senhor, consta em nosso sistema um débito de…” Depois de tentar, em vão, argumentar que a conta  já havia sido paga e que poderia provar isso, o máximo que Lirou conseguia era a promessa da atendente de que iria verificar com o departamento x, y, ou z e, posteriormente, alguém “estaria entrando” em contato. Como era de se esperar, ninguém ligou, e o sinal foi desligado com a justificativa de falta de pagamento. Estarrecido com tanta falta de competência e de respeito ao consumidor, Lirou também “desligou” a sua paciência com a BIG 2 e cancelou o serviço.

Mas Lirou “é brasileiro e não desiste nunca”. Movido pela sua inquebrantável fé de que algum dia as coisas vão melhorar, ele se encantou com a propaganda de outra grande empresa, que prometia acesso rápido a um custo menor, e contratou a BIG 3. Porém, algumas semanas depois, na primeira tentativa de envio de sua newsletter, a dura e fria realidade se impôs: Lirou descobriu que a velocidade da conexão a que a BIG 3 se referia na propaganda só valia para o recebimento (download) e não para o envio de informações (upload) – a velocidade era cerca de três vezes menor. Isso significava que Lirou conseguia baixar sem dificuldade várias fotos da Sharon Stone, sua musa, no entanto, para enviar sua newsletter mensal, gastava quase uma semana de processamento ininterrupto. Enraivecido com o tamanho da “cara-de-pau” da BIG 3, que sem nenhum pudor vendia “gato por lebre”, Lirou Consumidor partiu para o cancelamento do serviço, o que ele conseguiu com apenas uma dúzia de ligações. O que ele não conseguiu foi devolver o modem e receber o seu dinheiro de volta da BIG 4, a empresa que havia sido gentilmente indicada pela BIG 3 como fornecedora do equipamento necessário para o acesso. A BIG 4 alegava que o acesso e o modem eram produtos diferentes e adquiridos de empresas diferentes, portanto, mesmo cancelando o serviço de banda larga, Lirou deveria ficar com o inútil equipamento até o fim de seus dias. Obviamente, o fato de o modem só servir para a conexão da BIG 3 é “irrelevante”, assim como o de a empresa BIG 4 pertencer à empresa BIG 3 é uma mera coincidência.

Na prática, isso significa que, até hoje, Lirou está usando uma conexão discada, durante as madrugadas para escapar das tarifas telefônicas abusivas, “mas em compensação”, ele ostenta em sua mesa um lindo e decorativo modem da BIG 4, o que, segundo ele, serve como uma lembrança de que a incompetência e a falta de respeito com o consumidor é, muitas vezes, proporcional ao tamanho da empresa.

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